Rituais de fim de ano

 Ele fica pensando que é preciso se conectar de forma mais profunda. Talvez as coisas simples sejam, no fim das contas, a senha de acesso.


O ano vai se fechando, o Natal se anuncia, e lá está novamente o especial do Roberto Carlos. Clichê, previsível, quase um déjà-vu. Ele assiste — não exatamente por vontade, mas porque está ali, ao lado da mãe, dividindo o mesmo sofá, o mesmo silêncio confortável.


O especial, essa tentativa meio desajeitada de fabricar emoção, caminha numa linha frágil entre o cafona e o nostálgico. E o atravessa não tanto pela música, mas pelo que ela mobiliza ao redor: a presença da mãe, as lembranças da infância, a avó, um tempo em que tudo parecia mais simples.


Não é uma emoção declarada, mas um acúmulo de pequenos fragmentos de memória. Uma nostalgia discreta, misturada a uma busca constante por conexões mais profundas. Talvez seja isso que desenhe esse homem de 58 anos: alguém que tenta se reconhecer no que permanece, no que não faz barulho, no que ainda insiste em existir.


Então ele pensa nos rituais do fim de ano, nas palavras repetidas, no desejo quase automático de um tempo melhor. Feliz Natal, ele diz — para fora e para dentro. E segue desejando um possível feliz Ano Novo, esse tempo que todos insistem em chamar de novo, mesmo sabendo que ele chega carregando quase tudo o que já existia.                          Adriano Carvalhaes 23/12/2025

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